Poesia para Miguel

Ouvi a sua fala.

Me emocionei.

Te digo, irmão, me deu vontade

De me pintar de preto

Pra lutar, resistir, encarar junto contigo

Os olhares tortos dos olhos azuis.

Com mais propriedade

Com uma pele negra.

Mas mesmo sem essa pele forte

Mesmo com essa pele frágil e prepotente

Estou do teu lado.

Me indignando e transformando

A dor da opressão

Em combustível para lutar

Em exagero.

Debater exageradamente

Denunciar exageradamente

Esse racismo cada vez mais

Extremamente evidente

Esse poema foi escrito pelo brother branco Adelson Silvestre Jr. e recitado no primeiro espaço amplo do Coletivo NegreX em Janeiro de 2015.

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Enfrentar o que eu era pra assumir quem eu sou

Preciosa é um filme que conta um pouco da história de cada menina negra. Nesse, cabemos todas. Ela sofreu cada tipo de opressão. Como uma caricatura. Queria eu que ela fosse uma figura, uma metáfora, um parâmetro, mas não! Essa história é baseada em fatos reais, tão reais quanto essa triste realidade que lhes passo a contar ou a relembrar.
Quem de nós aqui nunca se imaginou em um corpo branco, magro, olhos azuis, cabelo liso e louro? Calma, isso se explica porque somos bombardeadas, a todo o momento, com heroínas hollywoodianas e todas essas características estereotipadas. Esse é o padrão, essa é a beleza. To fodida. Nasci parda, corpulenta, olhos castanhos, cabelo ondulado e volumoso. Nunca vi crianças como eu estampadas em revistas. Eu também nunca fui escolhida para dama de honra. Meu cabelo era cheio demais. Meu quadril era largo demais. Era gorda. Nunca fui a primeira a ser “escolhida” na balada. Era minha obrigação ter samba no pé. Meu nariz é largo demais. Meus lábios grossos são sensuais, mas batons fortes ficam vulgares. Shorts curtos em pessoas como eu ficam vulgares. Roupas apertadas em pessoas como eu ficam vulgares. Se eu me vestir dessa forma vou chamar muita atenção. Os homens gostam de mulheres com carne pra pegar. Você deve ser boa parideira. Mulheres como você são mais foguentas. Você não tem cara de quem faz medicina. Enfim, poderia passar horas escrevendo tudo que já ouvi, mas a conclusão é que cedi à opressão. Passei um produto tão forte no meu cabelo que fez meus olhos arderem. Cocei tanto a minha cabeça depois disso, e acabei ficando com pequenas feridas, mas isso não importava. Nada era demais quando se tratava de ter cabelo liso e, finalmente, meu cabelo estava liso. Lutei contra meu biótipo e vesti um jeans 38. Pintei meu cabelo de loiro. A grande e inequívoca conclusão é que isso não fez de mim a menina mais bonita da sala. Isso não me fez ser branca e, imponderavelmente, isso só me aprisionou ainda mais. Foi então que eu percebi, não sei se a tempo, mas a meu tempo, que meus esforços constantes não me levariam a lugar algum e o erro não estava comigo. Esse processo me deixou exausta. O feminismo me libertou de boa parte dessas cadeias, mas ainda me faltava algo. E é bom que sempre nos falte, porque ate pouco tempo eu não saberia dizer o que era. Até pouco tempo se alguém me perguntasse minha cor eu responderia parda. No entanto, hoje eu sei que vivo numa sociedade racista, e que pardo é papel. De certa forma não seria uma grande mentira me declarar como papel, porque até pouquíssimo tempo eu era. Estava em branco e mergulhada na ignorância. Hoje ainda sou papel, mas com tantas palavras, empoderamentos e marcas, finalmente percebi meu enegrecimento. Sou feliz por estar cada dia mais negra e completa. Fico feliz por estar meses sem encher meu cabelo de formol. Feliz em parar de procurar amor em quem busca estereótipos. Feliz por participar do movimento negro.Feliz por estar aqui hoje e saber que tenho pessoas pra contar nessa faculdade que, como o mascote sugere, temos que matar um leão a cada dia. Hoje sou livre pra viver minha negritude. Hoje sou livre pra pintar meu papel de cores tão fortes e expressivas como este movimento. Precisei enfrentar o que eu era pra assumir quem eu sou!

A. B. Black

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Negres de toda a Medicina, uni-vos!

NegreX- Coletivo de Estudantes Negres de Medicina

Em 13 de janeiro de 2015, no COBREM-Congresso Brasileiro dos Estudantes de Medicina, realizado em Belo Horizonte, foi fundado o Coletivo auto-organizado de negres estudantes de medicina, intitulado: NegreX. A partir de reuniões de cerca de 12 estudantes negres que estavam presentes no COBREM-BH, colocou-se em pauta a necessidade de uma maior discussão sobre a temática de negritude no âmbito da Executiva Nacional de Medicina e a partir da concordância do grupo, efetivou-se a fundação do Coletivo NegreX. Ainda no Congresso, foi realizada uma plenária ampliada com es estudantes que participavam do evento, onde foi discutido as justificativas para construção do espaço auto-organizado, bem como a própria construção do Coletivo. A plenária foi aberta para contribuição des presentes e um diálogo propositivo e esperançoso foi construído a cerca da criação do NegreX e ao seu futuro.

O NegreX no espaço acadêmico da medicina, se configura enquanto marco importante para a discussão sobre a pauta racial no tocante às opressões que estamos submetides dentro e fora da Universidade, se referenciando na não exclusividade da problemática dessa pauta a um espaço restrito entendendo, no entanto, a relevância do debruçar-se sobre a medicina, reiterando suas demandas e particularidades para es estudantes negres, e dos muitos avanços que ainda nos dias atuais se fazem necessário no âmbito da pautal racial.

Mais do que um espaço auto-organizado para discussão, pretende-se a partir do NegreX a construção coletiva e consciente, em mira de concretizar ações na perspectiva de promoção e aprofundamento dos detates na pauta racial, nos unindo e nos mobilizando, dentro e fora da DENEM, tendo como objetivo transformar a realidade concreta e contribuir para construção de uma sociedade cada vez mais distanciada das práticas opressoras em todas as suas formas de expressão.

A título de curiosidades, no nome NegreX, o ‘e’ vem na intenção de representar todos os gêneros e o ‘X’ maiúsculo é uma referência e homenagem a Malcom-X.

“Toda força ao NegreX!

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