Estamos aqui – We are here (PT/EN)

Durante os dias 2-6 de novembro de 2016, aconteceu no Brasil – Rio de Janeiro, a 21ª Conferência Mundial WONCA de Médicos de Família – WONCA. Este, sem dúvidas, é um dos poucos congressos, dentro da área médica, que discute a questão social como fator de adoecimento ou de saúde. Entretanto, não se manteve contra hegemônico, quando o assunto é raça. O racismo institucional se perpetuou e pouquíssimos (ou quase nenhum) espaços se propuseram a fazer recorte de raça/cor/etnia. Ao se perceber tal fato, membros do Coletivo NegreX iniciaram a empreitada de reunir o máximo de africanos e afrodescendentes presentes no Congresso, falando pessoalmente com cada um que encontrávamos. Dessa maneira, alcançamos 67 profissionais de saúde virtualmente, e 28 em uma reunião presencial no dia 5 de Novembro de 2016. Dentre eles, estavam profissionais da Enfermagem, Medicina e Psicologia, provenientes do Brasil, Haiti, Gana, Nigéria, África do Sul, Canadá e Estados Unidos.

Foi proposta a redação de um manifesto (em vídeo) com a visibilidade como tema central. Segue abaixo: https://youtu.be/UcOJ3hOECkI

“Estamos aqui”

Durante a 21ª Conferência Mundial WONCA de Médicos de Família e Comunidade, reunimos médicos e outros profissionais de saúde, africanos e afrodescendentes, por percebermos a escassez de espaços com a questão racial.

Ainda existem barreiras raciais, sociais e econômicas para africanos e afrodescendentes ao redor do mundo a serem superadas. Devido a história do nosso povo, temos necessidades que vem sendo negadas pelas organizações internacionais, governos e sistemas de saúde. Além disso, as universidades e a produção de conhecimento científico são predominante e tradicionalmente brancos, o que reforça a invisibilidade de nossa comunidade.

Nós, enquanto afrodescendentes e africanos, reafirmamos o que a Presidente Amanda Howe destacou: a importância da raça como determinante social do processo saúde doença. E diante disso, temos como objetivo implementar iniciativas, discursos e ações que deem visibilidade às demandas, necessidades e particularidades da nossa comunidade.

Essa luta está longe de terminar. Estamos aqui.

 


 

The 21st World WONCA Conference of Family Medicine took place in Brazil, between  2-6 November 2016. This, no doubt, is one of the few congresses, within the medical field, which discusses social issues as illness or health determinants. However, it was not counter-hegemonic when it comes to race. Institutional racism was perpetuated and very few (or no) spaces were proposed having color/race/ethnicity as a central theme.

When this fact was noticed, NegreX members started the attempt to gather the maximum of African and Afro-descendants present in Congress, speaking personally to each one that was found. Thus, we achieved 67 health professionals virtually, and 28 in a face to face meeting on 5 November 2016. Among them were professionals in Nursing, Medicine and Psychology, from Brazil, Haiti, Ghana, Nigeria, South Africa, Canada and the United States.

It was proposed as an action to write a statement that had visibility as its main point, which is shown below: https://youtu.be/UcOJ3hOECkI 

 

“We are here”

During the 21st WONCA World Conference of Family Doctors, we gathered Africans and African descent doctors and health professionals because we noticed the lack of race related discussions.

There are still racial, social and economic barriers to African and African descent people in many countries around the world to surpass. Due to the history of our people, we have necessities that are being neglected by international organizations, governments and Healthcare systems. Additionally, Universities and the research field are predominantly and traditionally white, which reinforces the invisibility of our community.

We, African and African descents, acknowledge what was pronounced by Amanda Howe: the importance of race as a social determinant of the health-illness process. Therefore, we have the objective to implement initiatives, speeches and actions that bring into light our communities’ demands, necessities and particularities.

This fight is far from the end. We are here.

 

 

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Cuidar para Afrocentrar – Saúde do Povo Negro

A primeira cartilha sobre Saúde do Povo Negro feita pelo Coletivo NegreX acaba de sair do forno e com ela queremos começar um debate dentro de nossa luta: nossa saúde é nós por nós.

Nosso povo está exposto há séculos à violência do processo de escravização, da negação de direitos sociais básicos e da ausência permanente de cuidado, seja na relação com o Estado ou nas relações pessoais. Cuidar das pessoas negras propõe um novo olhar sobre as nossas existências, protagonizando negros e negras como potenciais agentes de cuidado, de nós para nós, tendo como foco as práticas tradicionais de matriz afro-brasileira.

Cartilha De saude Título-1.png

O cuidado às pessoas negras tem potencial de trazer, para cada um de nós e de forma ampla, as bases materiais e imateriais do que é ser pessoa, do que é ser humano. Disse o poeta que “a casa é o corpo e o conforto é a alma”, assim, quando cuidamos de nós, arrumamos as nossas casas, e quando nos libertarmos do racismo teremos o esperado conforto.

Link para download: http://tinyurl.com/cartilha-negrex

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Poesia para Miguel

Ouvi a sua fala.

Me emocionei.

Te digo, irmão, me deu vontade

De me pintar de preto

Pra lutar, resistir, encarar junto contigo

Os olhares tortos dos olhos azuis.

Com mais propriedade

Com uma pele negra.

Mas mesmo sem essa pele forte

Mesmo com essa pele frágil e prepotente

Estou do teu lado.

Me indignando e transformando

A dor da opressão

Em combustível para lutar

Em exagero.

Debater exageradamente

Denunciar exageradamente

Esse racismo cada vez mais

Extremamente evidente

Esse poema foi escrito pelo brother branco Adelson Silvestre Jr. e recitado no primeiro espaço amplo do Coletivo NegreX em Janeiro de 2015.

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Enfrentar o que eu era pra assumir quem eu sou

Preciosa é um filme que conta um pouco da história de cada menina negra. Nesse, cabemos todas. Ela sofreu cada tipo de opressão. Como uma caricatura. Queria eu que ela fosse uma figura, uma metáfora, um parâmetro, mas não! Essa história é baseada em fatos reais, tão reais quanto essa triste realidade que lhes passo a contar ou a relembrar.
Quem de nós aqui nunca se imaginou em um corpo branco, magro, olhos azuis, cabelo liso e louro? Calma, isso se explica porque somos bombardeadas, a todo o momento, com heroínas hollywoodianas e todas essas características estereotipadas. Esse é o padrão, essa é a beleza. To fodida. Nasci parda, corpulenta, olhos castanhos, cabelo ondulado e volumoso. Nunca vi crianças como eu estampadas em revistas. Eu também nunca fui escolhida para dama de honra. Meu cabelo era cheio demais. Meu quadril era largo demais. Era gorda. Nunca fui a primeira a ser “escolhida” na balada. Era minha obrigação ter samba no pé. Meu nariz é largo demais. Meus lábios grossos são sensuais, mas batons fortes ficam vulgares. Shorts curtos em pessoas como eu ficam vulgares. Roupas apertadas em pessoas como eu ficam vulgares. Se eu me vestir dessa forma vou chamar muita atenção. Os homens gostam de mulheres com carne pra pegar. Você deve ser boa parideira. Mulheres como você são mais foguentas. Você não tem cara de quem faz medicina. Enfim, poderia passar horas escrevendo tudo que já ouvi, mas a conclusão é que cedi à opressão. Passei um produto tão forte no meu cabelo que fez meus olhos arderem. Cocei tanto a minha cabeça depois disso, e acabei ficando com pequenas feridas, mas isso não importava. Nada era demais quando se tratava de ter cabelo liso e, finalmente, meu cabelo estava liso. Lutei contra meu biótipo e vesti um jeans 38. Pintei meu cabelo de loiro. A grande e inequívoca conclusão é que isso não fez de mim a menina mais bonita da sala. Isso não me fez ser branca e, imponderavelmente, isso só me aprisionou ainda mais. Foi então que eu percebi, não sei se a tempo, mas a meu tempo, que meus esforços constantes não me levariam a lugar algum e o erro não estava comigo. Esse processo me deixou exausta. O feminismo me libertou de boa parte dessas cadeias, mas ainda me faltava algo. E é bom que sempre nos falte, porque ate pouco tempo eu não saberia dizer o que era. Até pouco tempo se alguém me perguntasse minha cor eu responderia parda. No entanto, hoje eu sei que vivo numa sociedade racista, e que pardo é papel. De certa forma não seria uma grande mentira me declarar como papel, porque até pouquíssimo tempo eu era. Estava em branco e mergulhada na ignorância. Hoje ainda sou papel, mas com tantas palavras, empoderamentos e marcas, finalmente percebi meu enegrecimento. Sou feliz por estar cada dia mais negra e completa. Fico feliz por estar meses sem encher meu cabelo de formol. Feliz em parar de procurar amor em quem busca estereótipos. Feliz por participar do movimento negro.Feliz por estar aqui hoje e saber que tenho pessoas pra contar nessa faculdade que, como o mascote sugere, temos que matar um leão a cada dia. Hoje sou livre pra viver minha negritude. Hoje sou livre pra pintar meu papel de cores tão fortes e expressivas como este movimento. Precisei enfrentar o que eu era pra assumir quem eu sou!

A. B. Black

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Negres de toda a Medicina, uni-vos!

NegreX- Coletivo de Estudantes Negres de Medicina

Em 13 de janeiro de 2015, no COBREM-Congresso Brasileiro dos Estudantes de Medicina, realizado em Belo Horizonte, foi fundado o Coletivo auto-organizado de negres estudantes de medicina, intitulado: NegreX. A partir de reuniões de cerca de 12 estudantes negres que estavam presentes no COBREM-BH, colocou-se em pauta a necessidade de uma maior discussão sobre a temática de negritude no âmbito da Executiva Nacional de Medicina e a partir da concordância do grupo, efetivou-se a fundação do Coletivo NegreX. Ainda no Congresso, foi realizada uma plenária ampliada com es estudantes que participavam do evento, onde foi discutido as justificativas para construção do espaço auto-organizado, bem como a própria construção do Coletivo. A plenária foi aberta para contribuição des presentes e um diálogo propositivo e esperançoso foi construído a cerca da criação do NegreX e ao seu futuro.

O NegreX no espaço acadêmico da medicina, se configura enquanto marco importante para a discussão sobre a pauta racial no tocante às opressões que estamos submetides dentro e fora da Universidade, se referenciando na não exclusividade da problemática dessa pauta a um espaço restrito entendendo, no entanto, a relevância do debruçar-se sobre a medicina, reiterando suas demandas e particularidades para es estudantes negres, e dos muitos avanços que ainda nos dias atuais se fazem necessário no âmbito da pautal racial.

Mais do que um espaço auto-organizado para discussão, pretende-se a partir do NegreX a construção coletiva e consciente, em mira de concretizar ações na perspectiva de promoção e aprofundamento dos detates na pauta racial, nos unindo e nos mobilizando, dentro e fora da DENEM, tendo como objetivo transformar a realidade concreta e contribuir para construção de uma sociedade cada vez mais distanciada das práticas opressoras em todas as suas formas de expressão.

A título de curiosidades, no nome NegreX, o ‘e’ vem na intenção de representar todos os gêneros e o ‘X’ maiúsculo é uma referência e homenagem a Malcom-X.

“Toda força ao NegreX!

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