Enfrentar o que eu era pra assumir quem eu sou

Preciosa é um filme que conta um pouco da história de cada menina negra. Nesse, cabemos todas. Ela sofreu cada tipo de opressão. Como uma caricatura. Queria eu que ela fosse uma figura, uma metáfora, um parâmetro, mas não! Essa história é baseada em fatos reais, tão reais quanto essa triste realidade que lhes passo a contar ou a relembrar.
Quem de nós aqui nunca se imaginou em um corpo branco, magro, olhos azuis, cabelo liso e louro? Calma, isso se explica porque somos bombardeadas, a todo o momento, com heroínas hollywoodianas e todas essas características estereotipadas. Esse é o padrão, essa é a beleza. To fodida. Nasci parda, corpulenta, olhos castanhos, cabelo ondulado e volumoso. Nunca vi crianças como eu estampadas em revistas. Eu também nunca fui escolhida para dama de honra. Meu cabelo era cheio demais. Meu quadril era largo demais. Era gorda. Nunca fui a primeira a ser “escolhida” na balada. Era minha obrigação ter samba no pé. Meu nariz é largo demais. Meus lábios grossos são sensuais, mas batons fortes ficam vulgares. Shorts curtos em pessoas como eu ficam vulgares. Roupas apertadas em pessoas como eu ficam vulgares. Se eu me vestir dessa forma vou chamar muita atenção. Os homens gostam de mulheres com carne pra pegar. Você deve ser boa parideira. Mulheres como você são mais foguentas. Você não tem cara de quem faz medicina. Enfim, poderia passar horas escrevendo tudo que já ouvi, mas a conclusão é que cedi à opressão. Passei um produto tão forte no meu cabelo que fez meus olhos arderem. Cocei tanto a minha cabeça depois disso, e acabei ficando com pequenas feridas, mas isso não importava. Nada era demais quando se tratava de ter cabelo liso e, finalmente, meu cabelo estava liso. Lutei contra meu biótipo e vesti um jeans 38. Pintei meu cabelo de loiro. A grande e inequívoca conclusão é que isso não fez de mim a menina mais bonita da sala. Isso não me fez ser branca e, imponderavelmente, isso só me aprisionou ainda mais. Foi então que eu percebi, não sei se a tempo, mas a meu tempo, que meus esforços constantes não me levariam a lugar algum e o erro não estava comigo. Esse processo me deixou exausta. O feminismo me libertou de boa parte dessas cadeias, mas ainda me faltava algo. E é bom que sempre nos falte, porque ate pouco tempo eu não saberia dizer o que era. Até pouco tempo se alguém me perguntasse minha cor eu responderia parda. No entanto, hoje eu sei que vivo numa sociedade racista, e que pardo é papel. De certa forma não seria uma grande mentira me declarar como papel, porque até pouquíssimo tempo eu era. Estava em branco e mergulhada na ignorância. Hoje ainda sou papel, mas com tantas palavras, empoderamentos e marcas, finalmente percebi meu enegrecimento. Sou feliz por estar cada dia mais negra e completa. Fico feliz por estar meses sem encher meu cabelo de formol. Feliz em parar de procurar amor em quem busca estereótipos. Feliz por participar do movimento negro.Feliz por estar aqui hoje e saber que tenho pessoas pra contar nessa faculdade que, como o mascote sugere, temos que matar um leão a cada dia. Hoje sou livre pra viver minha negritude. Hoje sou livre pra pintar meu papel de cores tão fortes e expressivas como este movimento. Precisei enfrentar o que eu era pra assumir quem eu sou!

A. B. Black

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